DISLEXIA

Quando as letras não fazem sentido

“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.”

Paulo Freire

 

De volta à época da escola ou mesmo na sua família, você já deve ter conhecido alguma criança com dificuldade de aprendizado. Por muitas vezes hostilizada, sendo chamada de “atrasada” ou preguiçosa, ela geralmente é vítima de bullying por parte dos amigos, além de sofrer uma enorme pressão dos pais e professores, isolando-se a cada dia mais e perdendo a fé nela mesma. Mas será que é falta de vontade mesmo?

A dislexia do desenvolvimento é um distúrbio neurobiológico de aprendizagem específico da leitura, escrita e ortografia, de caráter genético e hereditário – ou seja, não se trata de uma escolha. A nível mundial, de acordo com a Associação Internacional de Dislexia, estima-se que entre 15% e 20% da população possua esse distúrbio, sendo mais frequente do que imaginamos. A condição não indica, no entanto, que essas crianças sejam incapazes de absorver esses conteúdos, mas, sim, que elas aprendam de um jeito diferente.

É importante dizer, ainda, que não há cura para a dislexia, já que não se trata de uma doença. Mas isso não quer dizer que o portador não possa ter uma vida normal em qualquer fase de sua vida. Afinal, a dislexia não altera em nada as pré-competências básicas do portador, que pode até ter o Q.I. acima da média e sobressair-se em áreas que não exijam tanto da linguagem. E muitos são os exemplos, incluindo, pasmem, Albert Einstein e Steve Jobs – considerados gênios!

 

Tratamento

É claro que na fase escolar, onde o domínio das letras e das palavras é fundamental, a criança ou o adolescente pode sofrer muito. Neste sentido, a intervenção precoce, antes mesmo que elas iniciem a vida escolar, pode ser um ótimo aliado. Os primeiros sinais ocorrem no início do processo de alfabetização e é preciso ficar atento.

“Em crianças que apresentam sinais é possível intervir cedo, com estratégias que trabalhem habilidades fonológicas e reduzam déficits e inabilidades correlacionadas que venham a prejudicar sua capacidade de se apropriar da leitura e da escrita”, fala o neurologista infantil, Clay Brites. A vice-presidente da Associação Brasileira de Dislexia (ABD), Maria Ângela Nogueira Nico, ainda explica que caso o diagnóstico e intervenção seja realizado tardiamente, isso poderá implicar na perda de interesse escolar e acadêmico, isolamento social, problemas de conduta e até quadros depressivos e de transtornos de ansiedade.

A (ABD) sugere que o diagnóstico para dificuldades e distúrbios de aprendizagem seja realizado através de avaliações multi e interdisciplinares. Já o tratamento se dá por meio de foco e estimulação psicopedagógica e fonoaudiológica em atividades que envolvam leitura e escrita, por tempo indeterminado. Em diversos casos também se faz necessário acompanhamento psicológico (psicoterapêutico), por conta das questões emocionais, como a baixa autoestima.

“A intervenção deverá ser contínua até o momento em que o indivíduo disléxico consiga estabelecer suas próprias estratégias para lidar com suas dificuldades. Não há tratamento medicamentoso para dislexia”, explica Luiz Gustavo Varejão Simi, psicólogo e pesquisador da ABD.

Dado exposto num dos maiores congressos da área – o “Annual IDA Reading, Literacy & Learning Conference”, nos Estado Unidos – demonstra que 65% dos disléxicos em todo o mundo não possuem diagnósticos formais de seus quadros. Ou seja, a maioria sequer tem suas dificuldades profissionalmente identificadas. “A falta de informação adequada acerca da dislexia, sua etiologia, diagnóstico, tratamento, intervenção e, por consequência, o preconceito em torno dela são os principais obstáculos enfrentados pelos disléxicos”, aponta Maria, que também é fonoaudióloga e psicopedagoga clínica.

 

Educação

Maria explica também que, desde que haja uma atenção especial ao indivíduo disléxico em sala de aula, não há necessidade de uma escola especializada. Promovendo, inclusive, maior integração social na vida dessa criança. “De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a instituição de ensino deverá fornecer subsídios teóricos e práticos de acordo com as especificidades de cada aluno.”

A escola deve, portanto, modificar seu modo de ensinar e avaliar esta criança. “A primeira atitude é reconhecer que há quadro de dislexia e esclarecer a situação à família”, indica Brites. Os próximos passos são: entender como esta criança aprende melhor; ver seu potencial e suas maiores qualidades no processo do aprender; usar menos textos nas aulas baseando-as mais na oralidade e em recursos práticos e dinâmicos; considerar sua participação nas aulas como forma também de avaliar; oralizar as provas e permitir que o conteúdo respondido tenha maior importância do que o que foi escrito por ele para avaliar e dar notas. 

Portanto, antes de pressioná-los, o papel de pais e educadores é o de, sobretudo, se adaptarem às necessidades desta criança, buscando meios alternativos de ensinar, incentivando o que eles têm de melhor e mostrando a todos que não há nada de errado em ser diferente. Afinal, ninguém sabe de tudo!

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