Caco Ciocler

‘Não tem mágica. É um trabalho de sensibilidade!’

Atualmente no ar como o doutor Paulo, na série “Unidade Básica”, do Canal Universal - a qual se dedica também à direção de alguns episódios -, o ator Caco Ciocler desmistifica o estigma de galã e compartilha toda sua sensibilidade numa entrevista exclusiva para a Revista +Saúde. Um dos nomes mais conhecidos da TV brasileira, Ciocler fala sobre carreira, vida pessoal até os problemas observados na saúde pública no Brasil para a concepção de seu personagem. Aos 47 anos, ele comemora um dos momentos de mais surpresas e aprendizados em sua trajetória. Confira a seguir as novidades na vida do ator, diretor e agora avô: Caco Ciocler!

 

+Saúde - O doutor Paulo, seu papel atual, é um médico que atua numa Unidade Básica de Saúde (UBS) e acredita na importância da medicina preventiva. Para compor o personagem, você acompanhou a rotina de médicos? Aliás, como é a preparação para a construção de um novo personagem?

 

Caco Ciocler - Acompanhei por um dia para entender como funciona uma UBS, o tipo de relação que os médicos estabelecem com seus pacientes nas consultas e também nas visitas domiciliares, que são surpreendentes. Eu não conhecia a realidade das UBSs, então esse foi um trabalho muito importante para entender o universo que iríamos retratar. Mas o personagem tem, para além de uma profissão, suas características e conflitos singulares, isso é o que torna o doutor Paulo um grande personagem. Em relação a preparação, eu acredito que é sempre um trabalho de aproximação. De primeiro tentar entender porque o papel chegou até você naquele determinado momento da vida e a partir disso exercitar enxergar o mundo por meio de seu ponto de vista. É um trabalho de empatia, de se compadecer pelas suas dores e alegrias, e emprestar seu repertório para esse ser que não é você, que pensa e se relaciona com o mundo de uma maneira diferente da sua. Não tem mágica. É um trabalho de sensibilidade.

 

+Saúde - Baseado nessa experiência, o que você acredita ser o maior desafio dos médicos que atuam nos postos de saúde no Brasil atualmente?

 

Ciocler - Optar por trabalhar numa UBS é optar por viver uma vida dedicada a uma medicina familiar, preventiva, de vínculo afetivo com o paciente. Talvez seja o lugar menos glamouroso dessa profissão que ultimamente tem jogado com uma perigosa promessa de status e riqueza. Então o mais difícil acho que é mesmo abdicar desse lugar do médico bem sucedido, rico, especialista, que vai descobrir todo dia a cura para uma doença rara, como nos é "vendido" nas séries médicas mundo afora, e apostar numa carreira de contato real com as camadas muitas vezes menos favorecidas da sociedade. É uma carreira linda, mas muito pouco procurada. A maior dificuldade das UBSs hoje é achar médicos que queiram trabalhar ali ou ao menos que se estabeleçam na unidade, infelizmente. Vide a quantidade de vagas que continuam não preenchidas no programa "mais médicos".

 

+Saúde - Dizem que um ator pode acumular muitas profissões ao longo de sua vida, devido aos diversos personagens encenados. No entanto, você realmente escolheu caminhos bastante diversos. Felizmente, acabou se dedicando a vida de ator. Como você encara as mudanças e tomadas de decisões na vida?

 

Ciocler - Não sei se hoje continua assim, mas na minha época não tinha muita conversa. Aos 17 anos, saindo do colegial, você tinha que escolher uma profissão e eu escolhi Engenharia Química, sem fazer a menor ideia do que era ser um engenheiro, sem maturidade para entender o que é escolher uma profissão. Eu fazia teatro amador desde os onze anos, sem parar. Entrei na Escola de Artes Dramáticas por curiosidade, era minha paixão, mas não tinha coragem para poder enxergar que o teatro poderia ser uma escolha profissional. Achei que iria trabalhar como engenheiro e continuar com o teatro como hobby. Mas em 1995, eu ganhei meus primeiros prêmios profissionais como ator, soube que seria pai e na semana seguinte fui chamado para fazer minha primeira novela. Seria muita estupidez da minha parte não enxergar os sinais. Comigo sempre funcionou assim, eu problematizo, jogo para o universo e ele me apresenta as respostas. É só entender e seguir em frente.

 

+Saúde - Voltando ao universo das telinhas, o seu papel mais recente em uma novela foi como o charmoso Edgar, em “Segundo Sol”, da Rede Globo. Como você lida com o estigma de galã que conquistou ao longo dos anos de sucesso?

 

Ciocler - Eu sempre disse e continuo dizendo que essa coisa de ser visto como galã é resultado de uma escolha que o ator pode imprimir ou não em seus personagens. Passei anos fazendo papéis sem nenhum apelo sensual, simplesmente porque eles não pediam isso. E ninguém me chamava mais de galã. O Edgar pedia essa energia, ou melhor, achei bom para ele ter essa energia, achei que ajudaria a contar sua história, então emprestei a ele essa característica. O ator tem - ou deveria ter- a capacidade de imprimir a energia que quiser imprimir. Se vierem novos personagens charmosos ou sexies, eu os farei com o maior prazer, até que a idade me permita (risos). Se vierem personagens que não tenham esse apelo, você verá como as pessoas outra vez irão me descolar desse estigma, dessa gaveta. Isso já aconteceu diversas vezes na minha carreira televisiva.

 

+Saúde - Além de acumular vários papéis na televisão, você também atua como diretor de teatro e cinema. Qual o melhor destes “dois mundos”?

 

Ciocler - Sim, só queria lembrar que nessa segunda temporada de “Unidade Básica”, também dirijo dois dos oito episódios. Outra vez é a vida me devolvendo o que eu problematizo. Dirigir sempre foi um desejo antigo, começou no teatro, depois veio meu primeiro curta, o segundo, meu longa documentário e agora a vida me presenteia com a direção de um novo longa, o “Partida”, além da peça “Sopror” e da série, minha primeira direção na ficção. E tudo isso num só semestre! É um caminho relativamente novo, mas que tem me enchido de alegria. São mundos completamente diferentes, por incrível que possa parecer. O bom de dirigir é que você tem o controle de absolutamente tudo, a luta é para conseguir imprimir seu imaginário na obra. Quando você é ator, serve à criação, mas não é dono da assinatura artística da obra, entende?

 

+Saúde - Por falar nisso, nos conte um pouco do conceito e de como foi a experiência de gravar o road-movie “Partida”, no Uruguai?

 

Ciocler - Ano retrasado tive a ideia maluca de juntar uns amigos para tentar passar a virada de ano com o Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai. Não deu certo! Eles acharam que seria uma loucura ingênua. Final do ano passado, no entanto, aproveitando as eleições presidenciais e o fato de ver nascer numa grande amiga, a atriz Georgette Fadel, o desejo de se candidatar nas próximas eleições pelo PARTIDA (partido criado, gerido e composto apenas por mulheres), sugeri a ela que fizéssemos a tal viagem e ela aceitou. Juntei uma trupe inesperada de 12 pessoas que não se conheciam e partimos num ônibus de 1978 rumo ao Uruguai, tentar passar o réveillon com o Mujica sem avisá-lo. É um filme sobre utopias e afetos.

 

+Saúde - Aliás, outra grande experiência recente foi ter se tornado avô. Como está sendo essa nova fase da vida?

 

Ciocler - Maravilhosa! Infelizmente não convivo muito com minha neta, porque meu filho foi morar com ela fora de São Paulo. Mas sempre que dá estamos juntos. É uma delícia!

 

+Saúde - E como você cuida do corpo e da mente para se manter ativo e saudável diante de tantas funções, vivências e novidades?

 

Ciocler - Tenho fases. Infelizmente agora, por exemplo, dei uma descuidada depois da jornada rígida para viver o Edgar na novela. Mas logo estarei de volta. Da mente cuido trabalhando muito com o que amo.

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